top of page

Relações contemporâneas: solidão, intimidade e os desafios do nosso tempo

  • Foto do escritor: Jéssica Esteves
    Jéssica Esteves
  • 5 de fev.
  • 2 min de leitura

As relações contemporâneas se constroem em meio a transformações sociais profundas, atravessadas pela tecnologia, pelas mudanças nos papéis de gênero e por novas configurações familiares, ao mesmo tempo em que se intensifica uma sensação de desconexão emocional. Após a pandemia, o isolamento social e o aumento do uso das redes sociais, somados aos múltiplos lutos e experiências traumáticas vividas por muitos, algo parece ter se transformado: nunca estivemos tão conectados — e nunca nos sentimos tão sós.


Pesquisas recentes indicam que uma parcela significativa da população mundial se sente solitária. No Brasil, muitas pessoas relatam ter poucos vínculos íntimos e percebem que se relacionar hoje se tornou mais difícil. A solidão, antes compreendida como uma experiência individual, passou a ser reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma ameaça urgente à saúde pública, com impactos importantes na saúde mental e física.


A solidão não é apenas ausência de pessoas


É possível estar em relações, cercado de contatos e interações, e ainda assim experimentar solidão. Isso porque a solidão não diz respeito apenas à quantidade de pessoas ao redor, mas à qualidade da conexão emocional, da intimidade e do reconhecimento mútuo.

Nas relações contemporâneas, esse sentimento costuma emergir quando o diálogo se torna funcional, os conflitos não encontram espaço de elaboração e as expectativas permanecem implícitas — muitas vezes inconscientes.


Gênero e afetividade: tensões do nosso tempo


As transformações nos papéis de gênero atravessam profundamente os vínculos atuais. Antigos modelos já não dão conta da complexidade das relações, enquanto novas formas de se relacionar ainda estão em construção.

Homens e mulheres, em geral, foram socializados de maneiras diferentes para lidar com emoções, cuidado, autonomia e dependência. Esses desencontros podem gerar dificuldades na comunicação, sobrecarga afetiva, disputas silenciosas de poder e medo da intimidade — que muitas vezes aparece disfarçado de indiferença ou afastamento.


Para pessoas LGBTQIA+ e outras identidades dissidentes das normas tradicionais, esses desafios costumam ser ainda mais intensos, somando camadas de insegurança, invisibilidade ou solidão relacional.

Intimidade em tempos de excesso

Vivemos uma cultura que oferece muitas possibilidades de escolha, mas pouco espaço para aprofundamento. A lógica da rapidez, da comparação constante e da substituição enfraquece a capacidade de sustentar frustrações, diferenças e conflitos — elementos inevitáveis de qualquer vínculo vivo.


A intimidade exige o oposto da pressa: presença, escuta e disposição para o encontro com o outro em sua alteridade.


O lugar da psicologia


Na clínica psicológica, os conflitos relacionais e a solidão não são vistos como falhas individuais, mas como sinais de que algo na forma de se vincular precisa ser revisto. A psicoterapia pode ajudar a compreender padrões afetivos, elaborar expectativas inconscientes, ampliar a capacidade de diálogo e sustentar relações mais conscientes e possíveis.


Em um mundo marcado pela desconexão, cuidar da qualidade dos vínculos é um gesto profundo de saúde psíquica.


Referências

Gallup. Almost a quarter of the world feels lonely. 2023.https://news.gallup.com/opinion/gallup/512618/almost-quarter-world-feels-lonely.aspx

PODERDATA. 28% dos brasileiros dizem ter, no máximo, 1 amigo. Poder360, 2023. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poderdata/poderdata-28-dos-brasileiros-dizem-ter-no-maximo-1-amigo/. Acesso em: fev. 2026.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Commission on Social Connection – Report. 2024.https://www.who.int/groups/commission-on-social-connection/report

CNN Brasil. OMS torna a solidão prioridade de saúde global com nova comissão de trabalho. 2024.https://www.cnnbrasil.com.br/saude/oms-torna-a-solidao-prioridade-de-saude-global-com-nova-comissao-de-trabalho/

Comentários


​Jéssica Harumi Esteves - Psicóloga Clínica - CRP 06/118104

bottom of page