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Neurodivergências: formas singulares de experimentar o mundo e autorregulação

  • Foto do escritor: Jéssica Esteves
    Jéssica Esteves
  • 19 de fev.
  • 4 min de leitura

 

 

A ideia de neurodivergência parte de um princípio fundamental: nem todos os cérebros funcionam da mesma maneira — e isso não significa, necessariamente, doença. Em vez de enxergar certas características apenas pelo viés do déficit ou da patologia, a perspectiva neurodivergente reconhece que existem modos diferentes de perceber, sentir, aprender e se relacionar com o mundo. É sair da lógica do déficit e entrar na lógica da singularidade.

 

As neurodivergências compartilham um elemento central: uma forma mais intensa de experimentar o mundo.

 

A psicologia, especialmente sob uma perspectiva psicodinâmica, tem o papel de ajudar o sujeito a transformar intensidade em integração — e diferença em identidade.


No fim, não se trata de normalizar, mas de reconhecer que há muitas maneiras legítimas de existir.

 

 

Entre as expressões estão o Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e as Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Embora frequentemente compreendidos de forma isolada — e, muitas vezes, estigmatizada — ambos podem ser entendidos dentro de uma lógica psicodinâmica mais ampla, que considera o sujeito em sua complexidade emocional, relacional e simbólica.

 

O que é neurodivergência?

 

O termo surgiu dentro do movimento da neurodiversidade e propõe que diferenças cognitivas e neurológicas fazem parte da variabilidade humana. Assim como há diversidade cultural e biológica, há também diversidade neurológica. Isso não significa negar sofrimento. Muitas pessoas neurodivergentes enfrentam desafios reais — acadêmicos, profissionais e emocionais. Porém, a diferença está em compreender que o sofrimento não decorre exclusivamente do funcionamento interno, mas também da inadequação entre a pessoa e o ambiente.

 

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

 

O TDAH é caracterizado por padrões persistentes de desatenção, impulsividade e/ou hiperatividade. Entretanto, sob uma perspectiva psicodinâmica, podemos ir além da descrição sintomatológica e perguntar:

 

Como essa mente organiza seus afetos?

Que tipo de intensidade interna ela carrega?

Como lida com frustração, espera e limites?

 

Pessoas com TDAH frequentemente vivenciam o mundo com alta intensidade emocional, pensamento rápido e necessidade de estímulo. A dificuldade de autorregulação pode gerar sensação crônica de inadequação, especialmente em contextos que exigem controle contínuo e padronização de comportamento.

 

No entanto, também são comuns:

 

  • Criatividade elevada

  • Capacidade de hiperfoco em temas de interesse

  • Sensibilidade à injustiça

  • Energia psíquica abundante

 

A questão central não é “curar” a intensidade, mas aprender a regulá-la e integrá-la.

 

Superdotação / Altas Habilidades

 

As altas habilidades envolvem desempenho significativamente acima da média em uma ou mais áreas (intelectual, artística, acadêmica, liderança etc.), acompanhado de características como curiosidade intensa, pensamento complexo e sensibilidade ampliada.

 

Na psicodinâmica, é fundamental compreender que não se trata apenas de “QI alto”. Muitas vezes há:

 

  • Perfeccionismo exacerbado

  • Sensação de não pertencimento

  • lntensidade afetiva

  • Questionamentos existenciais precoces

  • Autoexigência elevada

 

Esses indivíduos podem apresentar o que o psiquiatra polonês Kazimierz Dabrowski chamou de sobre-excitabilidades: uma responsividade aumentada nos planos emocional, intelectual, imaginativo, psicomotor e sensorial.

 

Essa intensidade não é patológica em si — é uma forma ampliada de experiência. O sofrimento surge quando não há compreensão, acolhimento ou ferramentas de regulação.

 

Psicodinâmica da intensidade

 

Tanto no TDAH quanto nas altas habilidades, encontramos um ponto comum: a intensidade psíquica.

 

Do ponto de vista psicodinâmico, essa intensidade pode gerar:

 

  • Dificuldade de conter impulsos ou emoções

  • Oscilações entre entusiasmo e frustração profunda

  • Sensação de inadequação social

  • Conflitos entre desejo de pertencimento e necessidade de autenticidade

 

Muitas vezes, a pessoa desenvolve defesas como isolamento, procrastinação, autocrítica severa ou racionalização excessiva. Em terapia, o trabalho consiste em:

 

  • Integrar emoção e pensamento

  • Construir narrativa de identidade positiva

  • Diferenciar intensidade de descontrole

  • Desenvolver recursos de autorregulação

  • Autorregulação e sobreexcitabilidade

 

A autorregulação emocional é uma habilidade central para pessoas com alta intensidade interna. Ela não significa reprimir emoções, mas modular sua expressão e duração.

 

Algumas estratégias eficazes incluem:

 

1.⁠ ⁠Nomeação emocional: dar linguagem à experiência interna reduz sua carga.

“Estou frustrada” é diferente de apenas agir impulsivamente.

 

2. ⁠ ⁠Regulação corporal: como a intensidade muitas vezes se manifesta no corpo, práticas ajudam a estabilizar o sistema nervoso:

 

  • Respiração diafragmática

  • Exercício físico regular

  • Técnicas de grounding

  • Sono estruturado

 

3. ⁠ ⁠Organização externa

 

Para TDAH, estruturas visuais e ambientais funcionam como suporte regulatório:

 

  • Agenda visual

  • Listas objetivas

  • Técnica Pomodoro

  • Divisão de tarefas em microetapas

 

4. ⁠ ⁠Espaço para descarga criativa


Escrita, arte, música e projetos intelectuais funcionam como canais de elaboração simbólica da sobrecarga interna.

 

5.⁠ ⁠Psicoterapia


O espaço terapêutico oferece continência emocional, elaboração de conflitos e construção de identidade integrada — especialmente importante quando há histórico de críticas, invalidação ou sensação de “ser demais”.

 

É fundamental afirmar: neurodivergência não é sinônimo de defeito.

 

Embora o TDAH seja classificado como transtorno nos manuais diagnósticos, e as altas habilidades façam parte de políticas educacionais específicas, ambos representam variações na organização neuropsicológica.

 

O sofrimento não está na diferença em si, mas:

 

  • Na falta de compreensão

  • Na exigência de homogeneidade

  • Na ausência de estratégias de autorregulação

  • Quando compreendidas e integradas, essas características podem se tornar fontes de potência, criatividade e profundidade emocional.

 
 
 

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​Jéssica Harumi Esteves - Psicóloga Clínica - CRP 06/118104

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