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Não monogamia, vínculos afetivos e desafios na clínica contemporânea

  • Foto do escritor: Jéssica Esteves
    Jéssica Esteves
  • 5 de fev.
  • 3 min de leitura

A não monogamia política propõe um olhar crítico sobre os modelos tradicionais de relacionamento, questionando a ideia de que a monogamia seja a única forma legítima — ou natural — de vínculo afetivo. Mais do que discutir exclusividade sexual, trata-se de refletir sobre normas sociais, expectativas de permanência, hierarquias afetivas e relações de poder que estruturam o amor tal como o conhecemos.


Qualquer reflexão sobre formas de se relacionar precisa considerar um dado fundamental: desde o nascimento, dependemos dos vínculos afetivos para sobreviver. John Bowlby, ao formular a Teoria do Apego, mostrou que o vínculo é a base sobre a qual se organiza nossa experiência de mundo, de nós mesmos e do outro (BOWLBY, 1988). Assim, o desejo de vínculo — seja em relações monogâmicas ou não — não é algo a ser superado, mas compreendido para viabilizar uma escolha consciente de que forma irá se viver os afetos.


O sofrimento relacional frequentemente não emerge do número de vínculos, mas das experiências de insegurança, medo do abandono, temor da perda e da dificuldade de sustentar conexão emocional ao longo do tempo. Embora a capacidade de afeto possa ser ampla, o tempo, a energia psíquica e a disponibilidade cotidiana são limitados. A vida não se organiza apenas em torno dos vínculos afetivos, sejam eles sexuais ou não, mas projetos individuais, trabalho, outros desejos também demandam espaço, escolhas e negociação.


Relações contemporâneas e transformações sociais


O debate sobre não monogamia ganha força no contexto das transformações sociais das últimas décadas: mudanças nos papéis de gênero, maior valorização da autonomia individual, ampliação das discussões sobre diversidade sexual e afetiva e questionamentos às formas tradicionais de família. Esses movimentos tensionam ideias de posse, controle e idealizações românticas, abrindo espaço para outras possibilidades de vínculo.


Vivemos em uma cultura profundamente organizada pela monogamia como estrutura simbólica. Muitas expectativas de exclusividade, fusão e completude são internalizadas precocemente, antes mesmo de serem nomeadas ou questionadas. Como aponta Eva Illouz, o amor moderno também é atravessado por lógicas de mercado, desempenho e comparação, o que intensifica sentimentos de inadequação e descartabilidade nos vínculos (ILLOUZ, 2011). Nesse contexto, liberdade e autonomia não significam desconsiderar o outro ou o vínculo, mas constituem uma prática ética que envolve cuidado, responsabilidade e presença — e não apenas a afirmação do desejo individual.


Desafios emocionais nas relações não monogâmicas


No cotidiano, relações não monogâmicas costumam envolver desafios específicos. Negociações constantes, comunicação clara e revisão frequente de acordos fazem parte da experiência. Emoções como ciúme, insegurança, medo, raiva, culpa e ambivalência aparecem com frequência — não como sinais de fracasso, mas como afetos que pedem escuta e elaboração.


Mesmo quando há desejo e alinhamento teórico, a vivência prática pode mobilizar feridas antigas, histórias de abandono e dificuldades de comunicação. A transição da monogamia para a não monogamia, em especial, costuma desestabilizar referências afetivas profundas, exigindo tempo psíquico para reorganização dos vínculos. Conflitos amorosos raramente dizem respeito apenas ao presente: eles carregam narrativas inconscientes sobre pertencimento, desejo e reconhecimento.


A não monogamia na clínica psicológica


Na clínica, essas demandas convocam escuta, reflexão e responsabilidade afetiva. O trabalho terapêutico não busca indicar modelos ideais nem validar práticas específicas, mas acompanhar pessoas e relações na construção de vínculos mais conscientes, éticos e coerentes com seus valores, desejos e limites.

Processos de desconstrução — sejam eles ligados à monogamia, ao amor romântico ou às expectativas de gênero — podem ser emocionalmente exigentes. Eles mobilizam afetos primários, ligados à nossa história de apego e às experiências precoces de cuidado.


Mais do que responder à pergunta “qual é o melhor modelo relacional?”, a clínica convida a sustentar outra, talvez mais ética e profunda: como construímos vínculos que cuidem da nossa necessidade de conexão sem anular a singularidade do outro?

 

Referências


BOWLBY, John. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artmed, 1988.

EASTON, Dossie; HARDY, Janet W. Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas. São Paulo: Elefante, 2019.

HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.

HOOKS, bell. Comunhão: a busca feminina pelo amor. São Paulo: Elefante, 2022.

ILLOUZ, Eva. Amor nos tempos do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

NUÑEZ, Geni. Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Planeta, 2023.

PEREL, Esther. Sexo no cativeiro: reconciliação entre erotismo e vida conjugal. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

PEREL, Esther. Casos e casos: repensando a infidelidade. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

STRÖMQUIST, Liv. A rosa mais vermelha desabrocha. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2021.

VASALLO, Brigitte. Desafio poliamoroso. São Paulo: Elefante, 2020.

ZANELLO, Valeska. A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. São Paulo: Appris, 2018.

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​Jéssica Harumi Esteves - Psicóloga Clínica - CRP 06/118104

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